Antidoping e CBD: novo estudo alerta profissionais de saúde sobre riscos para atletas de elite

Antidoping e CBD: novo estudo alerta profissionais de saúde sobre riscos para atletas de elite

Implicações clínicas do antidoping na prescrição de canabidiol para atletas

Um estudo recente trouxe à luz evidências cruciais para profissionais de saúde que prescrevem canabidiol (CBD) a atletas sujeitos a testes antidoping. A pesquisa demonstra que produtos de espectro amplo, mesmo rotulados como “livres de THC”, podem conter canabinoides proibidos pela Agência Mundial Antidoping (WADA), resultando em testes positivos e possíveis sanções aos atletas.

Esta análise crítica apresenta as evidências científicas mais recentes e diretrizes clínicas para a prescrição segura de canabinoides a atletas de alto rendimento, considerando as atuais regulamentações antidoping.

Contexto regulatório atual do antidoping e canabinoides

Desde os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 (realizados em 2021 devido à pandemia), a WADA autorizou o uso de CBD por atletas, mantendo, entretanto, a proibição do Δ9-tetrahidrocanabinol (THC) e outros canabinoides presentes na Cannabis sativa. Esta distinção regulatória cria um cenário complexo para a prescrição clínica, exigindo dos profissionais de saúde conhecimento detalhado sobre as diferentes formulações disponíveis.

Evidências científicas: metodologia e resultados do estudo

A investigação científica que fundamenta estas recomendações seguiu uma metodologia rigorosa:

  • Desenho do estudo: Ensaio clínico controlado com 36 atletas voluntários
  • Duração: 10 semanas de acompanhamento
  • Intervenção: 31 atletas consumiram 150mg diários de CBD de espectro amplo; 5 receberam placebo
  • Protocolo de exercício: 90 minutos de atividade física moderada, em jejum
  • Biomarcadores: Amostras de sangue e urina coletadas pré e pós-exercício

Achados clínicos significativos

Os resultados apresentaram dados preocupantes para a prática clínica. Após 10 semanas de suplementação, foram identificados não apenas o CBD e seus metabólitos esperados (6-OH-CBD e 7-COOH-CBD), mas também canabinoides proibidos pela WADA:

| Canabinoide Proibido | Detecção Pré-Exercício | Detecção Pós-Exercício | |———————-|————————|————————| | Canabigerol (CBG) | 42% das amostras | 74% das amostras | | Canabidivarina (CBDV)| 68% das amostras | 84% das amostras |

O estudo demonstrou que o exercício físico potencializou significativamente a concentração destes canabinoides nas amostras biológicas, aumentando o risco de detecção em testes antidoping.

Implicações farmacológicas: diferenciação entre formulações de CBD

Para prescrição segura, é fundamental compreender as diferenças farmacológicas entre as formulações disponíveis:

1. Canabidiol isolado

  • Composição: Contém exclusivamente CBD (≥99,9% de pureza)
  • Perfil farmacocinético: Ausência de efeito séquito
  • Risco antidoping: Mínimo, desde que certificado por análise laboratorial
  • Indicação clínica para atletas: Preferencial para atletas de elite

2. Espectro amplo (broad spectrum)

  • Composição: CBD predominante + canabinoides menores (CBG, CBDV, CBC) sem THC detectável
  • Perfil farmacocinético: Efeito séquito parcial
  • Risco antidoping: Moderado a alto, conforme demonstrado pelo estudo
  • Indicação clínica para atletas: Contraindicado para atletas sujeitos a testes antidoping

3. Espectro completo (full spectrum)

  • Composição: CBD + canabinoides menores + THC em pequenas quantidades
  • Perfil farmacocinético: Efeito séquito completo
  • Risco antidoping: Alto
  • Indicação clínica para atletas: Absolutamente contraindicado para atletas de competição

Aplicações terapêuticas do CBD na medicina esportiva

O interesse crescente pelo CBD entre atletas de elite baseia-se em evidências preliminares de múltiplos benefícios potenciais:

  1. Modulação da dor:
    • Ação nos receptores vaniloides (TRPV1)
    • Inibição da recaptação de anandamida
    • Eficácia em dores crônicas por sobrecarga articular e muscular
  2. Propriedades anti-inflamatórias:
    • Redução da produção de citocinas pró-inflamatórias
    • Inibição da via NF-κB
    • Potencial aplicação em processos inflamatórios agudos pós-treino
  3. Efeitos neuroprotetores:
    • Redução do estresse oxidativo
    • Propriedades antioxidantes
    • Potencial efeito protetor contra lesões cerebrais traumáticas leves
  4. Regulação do sono:
    • Modulação do sistema endocanabinoide
    • Potencial melhora da qualidade e eficiência do sono
    • Impacto indireto na recuperação muscular e desempenho
  5. Efeitos ansiolíticos:
    • Ação no receptor 5-HT1A
    • Redução da ansiedade pré-competitiva
    • Melhora do foco e desempenho cognitivo

Diretrizes clínicas para prescrição segura

Com base nas evidências apresentadas, recomenda-se aos profissionais de saúde:

  1. Avalie o status competitivo do atleta:
    • Determine se o paciente está sujeito a testes antidoping
    • Identifique quais substâncias são proibidas na modalidade específica
  2. Selecione a formulação adequada:
    • Para atletas de elite: exclusivamente CBD isolado com certificação laboratorial
    • Solicite análises de terceira parte que confirmem ausência de outros canabinoides
  3. Documentação clínica:
    • Registre detalhadamente a indicação terapêutica
    • Documente a formulação específica prescrita
    • Mantenha registros dos certificados de análise dos produtos
  4. Monitoramento:
    • Acompanhe regularmente os níveis séricos em atletas de alto rendimento
    • Considere testes simulados antes de competições importantes
    • Ajuste doses conforme necessário para minimizar riscos

Perspectivas futuras nas regulamentações antidoping

A WADA mantém um processo contínuo de revisão de suas proibições. Em 2023, realizou uma revisão científica sobre o THC, mantendo sua proibição em períodos competitivos. Entretanto, existem indicações de possíveis mudanças futuras:

  • Reavaliação do status de canabinoides não-psicoativos
  • Potencial flexibilização para compostos sem efeito entorpecente
  • Necessidade de evidências científicas robustas sobre não-interferência no desempenho atlético

Qualquer alteração nas diretrizes deverá atender aos três critérios fundamentais da WADA:

  1. Ausência de vantagem competitiva
  2. Segurança para a saúde do atleta
  3. Conformidade com o espírito esportivo

Conclusão e recomendações práticas

Os dados apresentados evidenciam que a prescrição de CBD para atletas requer conhecimento específico das regulamentações antidoping e das características farmacológicas das diferentes formulações disponíveis. Profissionais de saúde devem priorizar a segurança do atleta, optando por produtos de CBD isolado com certificação laboratorial quando necessário.

Recomenda-se que médicos e profissionais de saúde mantenham-se atualizados sobre as constantes mudanças nas regulamentações antidoping e comuniquem claramente aos atletas os riscos associados ao uso de produtos de espectro amplo ou completo.

Ação recomendada: Considere participar de programas de educação continuada específicos sobre canabinoides e medicina esportiva para aprimorar sua prática clínica nesta área emergente.

Perguntas frequentes para profissionais de saúde

1: Quais são os critérios mínimos de qualidade para prescrição de CBD isolado a atletas de elite?

R: O produto deve apresentar certificação de análise por laboratório independente, demonstrando pureza ≥99,9%, ausência completa de THC, CBG, CBDV e outros canabinoides proibidos, além de conformidade com boas práticas de fabricação (GMP).

2: Existe alguma diferença na metabolização do CBD entre períodos de treinamento e competição?

R: Sim. O estudo demonstrou que o exercício físico intenso aumenta significativamente a concentração de canabinoides detectáveis nas amostras biológicas. Portanto, mesmo níveis residuais de canabinoides proibidos podem ser amplificados durante períodos competitivos.

3: Como orientar atletas sobre o tempo de washout necessário após uso inadvertido de CBD de espectro amplo?

R: A farmacocinética varia conforme o indivíduo, mas recomenda-se um período mínimo de 2-4 semanas de suspensão antes de competições importantes. Para maior segurança, considere testes simulados antes do retorno às competições.

4: Quais biomarcadores podem ser utilizados para monitorar o risco de positividade em testes antidoping?

R: Além dos canabinoides primários (CBD, THC, CBG, CBDV), é importante monitorar metabólitos como 11-nor-9-carboxi-THC, 7-COOH-CBD e 6-OH-CBD, que possuem meia-vida mais longa e podem ser detectados mesmo após a eliminação dos compostos originais.

5: Como diferenciar clinicamente os efeitos terapêuticos do CBD isolado versus formulações de espectro amplo?

R: O CBD isolado pode apresentar eficácia terapêutica ligeiramente reduzida devido à ausência do efeito séquito, potencialmente requerendo doses mais elevadas para alcançar efeitos comparáveis. Considere ajustes posológicos e monitoramento mais frequente da resposta clínica quando utilizar formulações isoladas.

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